05nov17 Viagens

O dia em que fui largada na fronteira

 

Louvre.

Pra quem não tem muita experiência com planejamento de viagens, comprar uma promoção numa agência do tipo “Londres e Paris em 8 dias” pode parecer uma boa saída. Certo? Não. Particularmente, tenho verdadeiro trauma de roteiros engessados.

Hoje em dia, com a infinidade de blogs de viagem e de informações que a gente encontra na internet, é muito válido – eu diria até viciante – aprender a programar o próprio roteiro.

Se você não tem a menor experiência e não sabe/ não quer/ prefere dar banho no gato ao invés de planejar um roteiro (sério, tenho amigos que detestam fazer roteiros, e sério, já tentou dar banho num gato? 😛 ), peça a ajuda de alguém que você confie ou trabalhe com isso há bastante tempo para não se arrepender depois. 

Até acho que para fazer certos tipos de passeios o ideal é contratar o serviço de agências locais. Imagina fazer um safári na Tanzânia (sonho) por conta própria? Não rola, né. Eu não faria.

Mas o que falo aqui nesse post é sobre entrar numa agência de viagens, comprar um pacote desses com roteiros prontos e nada pessoais e pensar: “Oba, não preciso me preocupar com mais nada”. Porque sim, você precisa!

Foi justamente esse pensamento que eu tive há muito tempo que me deixou no maior perrengue de viagem que já passei na vida. 

Eu havia decidido que faria minha primeira viagem à Europa num roteiro que era basicamente assim:

  1. Começaria por Londres;
  2. Depois iríamos de ferryboat até Calais na França (nosso ônibus e nossas malas iriam dentro do ferryboat);
  3. De Calais, o ônibus seguiria para Bruges onde passaríamos umas horas (foca nessa parte);
  4. Em seguida, o ônibus nos levaria de Bruges até nosso hotel em Paris. 

Bruges. Lindo, né? Não sei, porque eu não fui! Mas a minha irmã Renata March foi esse ano e me mandou essa foto. 

Esse era o roteiro oficial. Agora vou te contar o roteiro dramático… hehehe (tô rindo agora, mas já chorei horrores, viu?).

Como experiência é tudo, e essa viagem foi uma verdadeira odisseia, resolvi escrever este post com dicas que aprendi na dor rs. Assim, você não comete o mesmo erro que eu. 😉 O fato aconteceu em 2009, mas as dicas continuam importantes na programação de qualquer roteiro.  

Lógico que conseguimos aproveitar vários momentos da viagem (aliás, vou te distraindo com fotos “chatas” que meu fotógrafo oficial tirou de Londres e Paris), porque na vida temos que aprender a fazer do limão uma caipivodka, não é meGmo?

Dicas de Viagem

1) Mesmo fechando transfer com alguma empresa, tenha sempre um plano B.

A cena era a seguinte:

Primeiro dia de viagem, nosso voo atrasou e chegamos ao aeroporto de Londres 2 horas depois do horário marcado. Procuramos por um tempo o funcionário da empresa que nos levaria até nosso hotel, até percebermos que não havia ninguém.

Levou um tempo até cair a ficha de que não havia mesmo ninguém. Sou do tempo da ficha kkkk (cada k uma lágrima). Eu avistava as plaquinhas nas mãos das pessoas e não conseguia achar a que poderia ser minha. 

O que aconteceu:

O tempo limite de espera do transfer era de 1 hora, mas não sabíamos disso. Como nosso voo havia atrasado mais de 2 horas, o funcionário simplesmente foi embora. What?! Isso mesmo!

E não, não fazíamos ideia de como usar o transporte público para chegar até o hotel porque não tínhamos feito essa pesquisa. Na nossa cabeça, estava tudo mais do que certo, iríamos chegar em Londres e alguém da empresa nos levaria até o hotel.

Como não fomos informados antes sobre esse limite de espera, sugeriram que pegássemos um táxi que a agência nos reembolsaria na volta. Até aí tudo bem, a solução era ok.

Até eu perguntar o valor da corrida… SO MANY libras a menos em dinheiro vivo ou no limite do cartão.

Bom, estávamos muito longe do nosso hotel e não fazíamos ideia de como usar o transporte público para chegar até ele, e ainda com malas pesadas. Então, entramos no táxi. Por sorte, o motorista era um amor e foi de guia turístico explicando toda a cidade pra gente.

Carro inglês, prédios que pareciam castelinhos, sotaque britânico… Ok, eu já havia esquecido as libras e já estava encantada com Londres. 🙂

London Bridge.

Mas sério, sempre pesquise como chegar até o seu hotel, porque caso algo assim aconteça com você, não irá perder preciosas horas tentando resolver a situação. Ainda mais se você estiver atrasado. Atrasado? Sim, é a dica que vem a seguir:

2) Nunca marque um evento/passeio importante no dia da sua chegada.

Voos atrasam, empresas de translado te esquecem, ou você que esquece de comprar um chip para o seu celular e não consegue usar a internet para resolver um perrengue. Ou perde o celular, o lugar onde você está não tem wifi… Muitos cenários possíveis.

Mas vamos focar agora em não marcar nada que você queira muito fazer no dia da sua chegada. Marinheiros de primeira viagem fazem isso, mas claro que você não fazer, né? 😉

Nós, no caso, havíamos comprado ingressos para assistir a um show do U2 no dia que pisaríamos em Londres. Com toda a confusão do atraso do voo, perda de conexão e furo no translado, ficamos MUITO atrasados.

Estávamos com azar e sorte ao mesmo tempo, porque realmente o motorista de táxi era um amor de pessoa, e enquanto eu fazia o check in na recepção, ele ensinava – quase desenhando – ao Felipe como chegar mais rápido até o Wembley onde seria o show (e ainda nos levou até a estação de metrô mais próxima sem aceitar nenhum valor a mais por isso!).

Mas… Murphy existe.

E qual foi a primeira coisa que eu vi assim que cheguei na estação? Uma placa informando que a linha que tínhamos que pegar estava fechada naquele fim de semana hahaha.

Como turista perdido parece que tem letreiro piscando “lost” na testa, rapidamente um funcionário do metrô veio falar com a gente e nos explicou o novo caminho. Mas na verdade, eu resolvi foi seguir uma menina quando a ouvi falando “Wembley” (o estádio do show haha). Eu acho muito difícil entender o inglês britânico, apesar de querer ter nascido com aquele sotaque. 

Conseguimos, enfim, chegar ao estádio. Deu tudo certo, fora a vontade louca de tomar o banho que não deu tempo + o cansaço acumulado pelas horas sem dormir no avião + o fato de termos esquecido a máquina fotográfica pela correria.

Mas confesso que quando a adrenalina baixou, eu quase dormi em pé no show, e se fosse o Coldplay eu não teria me perdoado rs.

No final, ainda teve toda uma odisseia para conseguir chegar de transporte público ao hotel, que era muito longe… Por isso vem aí a minha terceira dica:

3) Location. Location. Location.

Big Ben.

Boa localização é fator essencial na escolha de um bom hotel. Essa é uma reflexão muito importante que você deve fazer ao escolher uma hospedagem: Economia em hotel mal localizado vira gasto em algum momento da viagem. Pode ter certeza!

Geralmente, os pacotes prontos de algumas agências de turismo escolhem uns hotéis não muito bem localizados (claro que há exceções, ok). E quando bem localizados, às vezes são péssimos! 

Depois dessa experiência de Londres, eu sempre tenho o maior cuidado para definir o local onde vou me hospedar e faço questão de escolher cada detalhe (hotéis que façam realmente meu investimento valer a pena). 

Saindo do show do U2, fomos em direção ao metrô. Apenas um probleminha: As linhas de metrô começaram a fechar, e mais uma vez tivemos que aprender novos caminhos para chegar até o hotel, que parecia cada vez mais longe conforme a hora ia passando.

Fizemos amizade com uns portugueses que nos ajudaram até chegar onde eles estavam hospedados (meio do nosso caminho), até que resolvemos pegar um táxi. Nosso hotel estava mesmo muito mal localizado.

Você não precisa ficar colado nas atrações, mas um metrô próximo ao hotel te economiza tempo e dinheiro! Lógico que um lugar bom e muito bem localizado não é barato, mas sempre dá pra achar uma boa relação custo x benefício.

Algumas economias não valem a pena, porque além de perder tempo (e tempo em libra vale quanto, hein?), você vai acabar gastando em situações que não conseguirá depender do transporte público. Vai por mim. 😉

4) Não foque apenas em pontos turísticos.

Um lugar chamado Notting Hill.

Pausa para uma dica totalmente pessoal. Eu sou uma pessoa feliz em dias nublados e londrinos. Andar na rua tomando um “latte to go” pra esquentar o corpo em um dia frio de viagem é uma memória afetiva minha que bate lá no fundo, sabe? Eu me encaixo perfeitamente em lugares assim.

Dito isso, talvez você não concorde comigo nesse aspecto, mas eu sinto “zero obrigação” de conhecer pontos turísticos que não me dizem nada.

Eu não entendo o motivo de eu ter que ficar parada horas na frente de uma atração que não tenho o menor interesse em conhecer, apenas porque alguém diz que você “tem que ir”.

Sempre analise com carinho os pontos turísticos e veja se você tem um real interesse em conhecê-los. O ideal é mesclar. Tem coisas que você só conseguirá vivenciar se pensar um pouquinho “fora da caixa”, e é isso que torna cada viagem única e especial. 

Todas as pessoas que pedimos informação tiveram um carinho tão grande em responder as nossas perguntas… Um guarda chegou a nos oferecer uma barrinha de cereal quando fomos pedir informações sobre restaurantes! 

Como pode uma cidade ser classuda e ao mesmo tempo fofa até o último tijolinho? Sei lá, Londres pode. Meu carinho especial por Notting Hill com suas cores e casas lindas (com preços não tão lindos assim). A Inglaterra é realmente muito linda.

Viajando fora da caixa. Cantinho escondido em Notting Hill.

Mas bom, não vamos perder o foco do post. Chegando na fronteira, o que estava por vir…

Essa parte merece 2 dicas seguidas:

5) Tenha sempre uma boa quantia em dinheiro vivo com você. 

6) Compre um chip de internet para o seu celular.

Acho que nunca na minha vida pensei que algo do tipo pudesse acontecer comigo numa viagem.

Saindo da Inglaterra, pegamos o ônibus da excursão que iria nos deixar dentro do ferryboat, a caminho de Calais, na França. Sabíamos que quando o barco atracasse, tínhamos que descer as escadas do ferry e voltar ao nosso ônibus, que viajava dentro dele num compartimento especial.

O ferryboat atracou e automaticamente formou-se uma fila para descer as escadas. O que nós fizemos, evidentemente? Ficamos na fila para descer. E então procuramos o ônibus. E procuramos mais um pouco. E nada. 

Fomos sozinhos para a fila da imigração esperançosos de que encontraríamos nosso ônibus. E nada. Pedimos ajuda a um funcionário do ferryboat com um walktalk. Uma confusão de línguas, inglês, francês, e nossa apreensão começou a aumentar.

Enfim ficamos sabendo que o ônibus já havia partido. Como? Não sei dizer até hoje.

Eu confesso que fiquei tão desnorteada que não sabia nem onde eu tava. Não sabia se o meu desespero era maior por perder o passeio a Bruges, ou por estar numa fronteira sem minhas malas, sem meu remédio de asma e sem saber como chegar ao hotel em Paris!

Lembro que cheguei até um guichê e perguntei se a pessoa falava inglês e ela me respondeu: “Sometimes.”

A beleza estonteante da arquitetura do Louvre.

Perguntei: “Estamos na França?”. A pessoa olhou para um colega de trabalho meio incrédula pela minha pergunta, e respondeu: “Sim!”. Falei “Por favor, gostaria de fazer uma ligação internacional, tem algum lugar que eu possa fazer isso?”. “Tem sim, um orelhão a alguns metros daqui. Mas só há como usá-lo com moedas.” 

Ok, dificilmente você hoje em dia vai precisar usar um orelhão para fazer uma ligação internacional. Mas pense que você pode perder seu celular, ou ele ser roubado, pode não ter wifi onde você está… Aliás, pense seriamente em sempre viajar com um chip de internet no seu aparelho.

Bom, troquei algumas notas de euro por moedas e fomos para o orelhão. Primeira tentativa, ligar para a agência. O fuso horário não batia e ninguém atendia ainda. Segunda tentativa, liguei para o meu pai.

Quando ele falou alô, eu só conseguia chorar, e o Felipe pegou o telefone da minha mão e explicou a situação para o meu pai (a cada 10 segundos uma moeda caía), e conseguimos que ele falasse com a agência e nos passaram as “coordenadas”:  “Dê um jeito de chegar até o hotel de Paris até as 21 horas que suas malas estarão lá.” Estávamos a 2 horas de Paris…

Confesso que chorei. Mesmo, copiosamente.

Não era dessa vez que eu ia conhecer Bruges, e a situação era meio inacreditável mesmo.

Pegamos um táxi (que só aceitava dinheiro) até uma estação de trem, e depois um metrô, tudo isso batendo cabeça para conseguir entender o trajeto correto até o hotel, e gastando mais um dinheiro que não estava previsto.

Foto clichê em Paris.

A dificuldade em me comunicar em inglês nessa parte da França me fez pensar muito na dica que vem a seguir:

7) Aprenda pelo menos o básico do idioma do país que você for visitar.

É muito importante aprender pelo menos o básico do idioma do país que você vai visitar. Se você chegar falando secamente “Do you speak english?” em alguns lugares que a língua nativa não é o inglês pode não receber uma resposta muito legal. 

  • Hoje em dia, tem uns apps interessantes de celular como “Duolingo” que já quebram um galho para aprender o básico de um idioma. Você vai se divertir pelo menos tentando pronunciar as frases corretamente no áudio das lições.
  • O Google ajuda muito também com o tradutor de frases se você tiver acesso à internet, mas em alguns momentos o ideal é falar um pouco da língua nativa mesmo.

Certamente se eu soubesse falar francês nessa parte da França teria facilitado a minha vida. Se você for mais para o interior por exemplo é legal falar umas palavrinhas.

Enfim, depois do táxi, trem, metrô… Depois de toda a tristeza de ser largada numa fronteira sem as malas e sem o passeio da Bélgica… Depois de ter chorado litros e ter xingado até a última geração… Eu nunca vou esquecer esse momento. A imagem ficou gravada para sempre na minha memória:

Paris!

Não precisa de legenda. ELA!

Meu primeiro contato com Paris foi saindo literalmente debaixo da terra e dando de cara com essa cidade tão deslumbrante. Eu simplesmente prometi a mim mesma naquele momento que iria aproveitar muito meus dias na cidade, porque Paris não merecia nada diferente disso.

Mas… Desgraça pouca é bobagem haha… Só acaba quando termina.

Chegamos ao hotel às 20:50, ou seja, 10 minutos antes do horário que teoricamente o ônibus iria aparecer com nossas malas. Ele era longe, viu, muito longe. Fui logo me dirigindo à recepcionista e perguntando sobre o ônibus.

E qual não foi a minha surpresa ao ouvir que o ônibus já tinha chegado. E acredite, já tinha também ido embora! E NÃO haviam deixado nossas malas…

Não vou me alongar em mais essa odisseia, minha pressão subiu, só conseguia pensar no meu remédio de asma e no dinheiro que eu ia ter que gastar com roupas para conseguir passear pela cidade. 

Perdemos horas entrando em contato com a agência tentando resolver o problema, principalmente por causa do meu remédio. Até que um tempo depois as malas chegaram até nosso hotel.

Isso me leva à oitava dica de viagem e talvez a mais importante:

8) Leve sempre seus principais remédios com você, se possível leve mais de uma caixa e deixe uma na mala e outra na sua bolsa/ mochila (não esqueça a receita médica).

Aliás, se você estiver viajando com mais uma pessoa, divida suas roupas por todas as malas. A probabilidade de você ficar sem nenhum pertence diminui consideravelmente. A não ser que você e quem estiver viajando contigo sejam largados sem nada numa fronteira… 

E nunca, em hipótese alguma, viaje sem seguro saúde.

End of story.

Quer dizer, não, porque apesar da situação inconcebível, eu estava em Paris! 

E se tem uma cidade no mundo que deixa a gente de queixo caído, essa cidade é Paris!

Eu sou de sentir uma energia diferente em alguns lugares, e foi no Louvre que eu me emocionei. Sim, eu choro de emoção nos lugares…

A simetria do Louvre é realmente fascinante.

Vou precisar de um lençol em Amsterdam.

 

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4 comentários

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4 Comentários

  • Carla Sobral
    07 nov 2017

    Oi Flavinha!
    O site ficou mais bonito ainda! 😍
    Parabéns!

    Que sufoco vc já passou, hein!?
    Obrigada pelas ótimas dicas!
    Bjinhos!

    • Flávia March
      07 nov 2017

      Oi, Carlinha! Brigada!!
      Menina, nem fala do sufoco! Vivendo e aprendendo, né? 😉
      Feliz de ver vc por aqui!
      Bjksss

  • Erica
    06 nov 2017

    Por essas e outras que sou a favor de focar num país por vez. Não curto essa ideia de fazer vários países numa tacada só. Tanto que passamos 22 dias viajando apenas pela Espanha. Sei lá… neura nossa, mas também preferimos lugares onde podemos nos comunicar. Claro que como falamos inglês, francês e espanhol ajuda e muito. Mas e se você tivesse na China? Japão? Rússia? Senhor!!!!!

    • Flávia March
      06 nov 2017

      Aí senta e chora! Hahaha se bem que foi o que eu fiz nessa situação também…
      Eu também gosto de ficar mais tempo num lugar, mas quando penso que só tenho 30 dias de férias e um mundo inteiro para conhecer, me dá agonia ficar só num lugar. Mas eu sempre procuro ficar um tempo considerável em cada cidade que vou hoje em dia!
      O problema é que na Europa é tudo tão perto… Eu queria um ano de férias, pode ser? Hahaha
      Bjs!